Baru e as grades

Baru, o lendário gato gordo do CRUSP, estava esparramado no balcão da portaria do Bloco A, observando o entra e sai de estudantes com aquele olhar calculista que só os gatos têm. Na frente dele, Tino, o porteiro, ajeitava o uniforme enquanto tentava organizar as chaves e papeis espalhados pela mesa.

- Tino, Tino… - começou Baru, com a voz arrastada, enquanto esticava as patas dianteiras num alongamento preguiçoso. - Que história é essa de colocarem grades aqui no CRUSP?

Tino ergueu os olhos, surpreso, mas não muito. Conversar com Baru já era parte da rotina.

- Ah, Baru, é isso mesmo. Estão instalando portões nos blocos para melhorar a segurança, sabe?

Baru estreitou os olhos, desconfiado.

- Segurança pra quem, Tino? Porque pra mim tá parecendo que vão atrapalhar a minha vida. Já pensou como vou fazer para entrar e sair quando me der na telha?

Tino coçou a nuca.

- Ué, você sempre dá um jeito, né? Gato esperto como você não vai ter problema,

- Ah, claro, “eu me viro”. - Baru bufou. - Mas e quando estiver chovendo? Hein? Vou ficar na rua todo molhado, parecendo um rato?

- Bom, nesse caso, é só esperar alguém abrir o portão para você. Tem sempre gente entrando e saindo.

Baru deu um miado irônico. - Esperar? Você já viu o meu pelo quando fica molhado? Parece que saí de uma máquina de lavar. Isso não é vida para um gato da minha estatura, Tino.

O porteiro tentou conter uma risada, mas Baru continuou.

- E tem mais: onde vão deixar minha comida? No balcão, no corredor? Ou vão inventar uma “área segura para felinos”? Quero ver você explicar pro pessoal dos blocos.

Tino se remexeu na cadeira. - Bom, a comida… acho que vai continuar onde sempre fica…

Baru levantou uma sobrancelha, se é que isso é possível para um gato. - Ah, vai continuar? E se trancarem as grades a noite? Vou ter que caçar, é isso? Voltar aos tempos de miséria?

- Você é um gato, Baru, Sabe caçar.

- CAÇAR? - Baru se levantou indignado, o rabo grosso como uma escova de garrafa. - Você me viu ultimamente, Tino? Com esse peso todo eu mal corro atrás da minha sombra!

Tino, tentou acalmá-lo. - Tá, tá, não precisa exagerar. A gente vai dar um jeito de deixar um lugar pra você sempre entrar.

- Um lugar? - Baru miou com desprezo. - E quando algum fiscal vier e disser que “é contra as normas”? Porque você sabe que eles adoram inventar regra pra tudo.

Tino suspirou, sem argumentos. - Olha, Baru, eu só sou o porteiro. Não decido essas coisas.

Baru sentou-se e olhou fixamente para ele, com aquele olhar que faz os humanos se sentirem culpados, mesmo sem saber por quê.

- Pois é, Tino. Ninguém pensa no gato. Essa história de segurança me parece uma furada, essas grades bonitinhas não parecem deixar nenhum mal para fora, vocês podem achar que estão protegendo alguém aí dentro, mas e eu? A alma do CRUSP? Vão transformar isso aqui num presídio e esquecer de mim.

Tino tentou responder, mas antes que pudesse pensar em algo, Baru pulou para o chão com um movimento ágil, apesar do peso.

- Deixa para lá, Tino. Vou ter que resolver isso sozinho, como sempre. - E saiu, com a cauda levantada e a dignidade intacta.

Do balcão, Tino apenas observou o gato desaparecer no corredor. Sabia que, de alguma forma, Baru encontraria uma solução. Afinal, era impossível colocar barreiras para o verdadeiro Rei do CRUSP.

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